#121
semana passada não apareci aqui, me perdi nas demandas de trabalho e não consegui finalizar a news como eu gostaria. atrasado entre muitas coisas, fiquei pensando na forma que lidamos com o tempo e como as rotinas nos aprisionam e também nos confortam.
explico: tem dias em que a gente quer fugir da rotina, queremos o inesperado, o não-óbvio; mas tem outros em que precisamos da paz do que já conhecemos. se há duas semanas eu falei aqui que vivi todos os dias na rua, indo de show em show, na semana passada eu precisei ficar em casa, ignorei convites, fugi de eventos na rua e precisei de casa, fazendo comidinha, vendo novela - e ao mesmo tempo o meu trabalho andou completamente fora da rotina, por isso fui consumido.
na rotina caseirinha, recolhendo roupas do varal, lembrei dos versos de Itamar Assumpção em “Noite Torta”: “Sozinha nesta cozinha / Em pé eu tomo um café / Na pia a louça suja / Me lembra da roupa suja / No tanque que a vida é”.
no tanque que a vida é.
recolhi a roupa do varal, dobrei e juntei com as outras que estavam dobradas sobre a cadeira do meu quarto, pois aí tem que arrumar novamente o armário e assim o ciclo segue, como outros ciclos intermináveis. Lavar roupa, lavar louça, limpar o banheiro, separar os legumes e as frutas antes que eles estraguem na fruteira, descongelar a carne…
nisso lembrei daquela entrevista em que a Aretha Franklin é perguntada sobre seus maiores desafios e ela - naquele jeitinho único dela - pensa alguns segundos e responde “acho que é decidir o que cozinhar pro jantar. toda noite [...] noite após noite”. e eu entendo a diva.
tem dias que amo cozinhar e em outros que estou completamente sem criatividade. e, por isso mesmo, respeito ainda mais quem comanda uma casa e cozinha quase todo dia, reinventando comidas. eu, se estou sem forças criativas, peço comida no delivery - o triste é aqueles dias de fim de mês que não dá pra pedir comida, aí temos que cozinhar na força do ódio.
no final das contas, entre correrias de um tempo que parece (digitalmente) mais veloz, acho que a rotina ainda funciona como um respiro de tranquilidade. às vezes só precisamos de nossa casinha e de todos os rituais banais de um adulto funcional. lavar as roupas, secar os pratos, tirar o pó dos livros. a trivialidade é fundamental para que a gente ainda se emocione com o extraordinário.
entre dias comuns, ainda podemos (e devemos) se deixar surpreender com o inesperado.
lançamentos
Ivana Wonder enfim chega ao seu primeiro disco. já vi Ivana diversas vezes ao vivo e sempre esperava esse disco para poder enfim recomendar para todo mundo. de canto soturno e afeito aos velhos tempos, Ivana me surpreendeu com esse disco: seu canto se encontra/se choca com o glam rock, atravessando e costurando refs - de Maysa a Ney Matogrosso, de David Bowie a PJ Harvey. oito faixas, sete autorais e uma regravação de Carlos Gomes (!); dentre as canções uma parceria de canto com Catto e uma composição dividida com Helio Flanders. disco para ser saboreado aos poucos, a cada garfada.
no timing da equipe da Pabllo! enfim ouvi o novo da Charli XCX, “Music, Fashion, Film” e adorei. o tempo percorre seu próprio ritmo, então ouvi no momento que fez mais sentido pra mim e isso foi fundamental. gosto como o disco brinca com as expectativas do que seria o rock e como o faz pelas lentes do pop de 2026, dialogando de forma direta com uma série de nomes que foram importantes para o rock alternativo dos últimos 30 anos, de Placebo a Metric, de The Kills a Strokes, tudo com o bom humor/melancolia de Charli. é curtinho? é, mas talvez se fosse mais longo ficasse enfadonho - gosto dessa concisão. ouça aqui.
minha colega de podcast Isadora indicou o Overmono e, além das refs que ela apontou em diálogo com o disco, o que me cativou a dar play foi a capinha com dois cachorrinhos divos. música de pista, UK garage, house e outros beats a moda inglesa em um salada que me agradou - não sou entendido das tags do mundinho eletrônica, então não sei definir 100%, mas só sei dizer que é um disco que realmente me cativou já de cara. recomendo para as clubbers e as UKs.
um projeto da Casa do Povo em parceria com 55SP, o novo álbum do Coral Tradição, “שמש (shames)”, apresenta 13 faixas inéditas, em um percurso rico, um casamento único de memória, recriação e experimentação. de um lado a preservação e interpretação de um repertório tradicional ídiche, de outro o diálogo com um mundo a ser descoberto. a Casa do Povo é um espaço no coração do Bom Retiro, bairro que agrega judeus e coreanos (e um bocado de novos hipsters); espaço comunitário gregário, a Casa é aberta e para uso coletivo, impulsionando encontros diversos. regido pela maestrina Hugueta Sendacz, de 99 anos, o Coral se expande aqui em diálogo com nomes como Arto Lindsay, Ava Rocha, Ilú Obá de Min, Paulete Lindacelva e outros - destaco o encontro com o Coral das Mães Coreanas, o casamento mais Bom Retiro possivel, o diálogo entre o iídiche e o coreano. enfim, é difícil explicar o Bom Retiro e a Casa do Povo, recomendo a visita para todos. de todo modo, acho que esse disco capta um pedacinho disso e vale a audição e a leitura de seu texto de apresentação, para uma compreensão mais ampla de tudo.
Cães de Prata é uma banda-de-um-homem-só: Mateus Borges, que assina composição, letra, voz e synth, um artista “baiano-alagoano” radicado em SP. dito isso, “Um Ano aos Estilhaços”, seu novo disco, nasce das mudanças e trânsitos de seu artista, uma vez que teve suas canções compostas em temporadas na cidade de Maceió. e aí acrescentamos o fato de que a banda-de-um-homem-só ganha corpo com a ajuda de produtores diversos e de uma banda de estúdio de cinco outros músicos. a complementaridade entre solidão e coletividade. de tudo isso nasce um disco de post-rock que ele classifica como “insubordinado à canção” - não sei se concordo, mas gosto de como ora se banha das canções e ora foge delas, desmontando-as. disco interessante. ouça aqui.
o cantor e compositor cearense Lucas Bezerra lança “EU MANDEI MEU AMOR PRO ESPAÇO”, seu primeiro álbum de estúdio. o disco revisita a obra do compositor paraibano Totonho em nove releituras que reúnem participações de Geraldo Azevedo, Rita Benneditto, Zé Ibarra e nomes da cena contemporânea da Paraíba. em vez de uma homenagem póstuma, o projeto propõe a celebração de um compositor vivo cuja obra segue em plena atividade. é um disco que ainda ouvi pouco, mas achei interessante registrar por aqui para quem quiser descobrir junto comigo.
fervos & bafos
o “Festival do Patrimônio – São Paulo: cada olhar, uma história” está rolando até domingo, dia 16 de agosto e reúne mais de 500 atrações gratuitas em todas as regiões da capital de São Paulo.o evento traz atividades que revisitam e valorizam histórias da cidade por meio da arquitetura, da gastronomia e de suas ruas. a programação é imensa (!!!), mas destaco algumas coisas aqui a Luedji Luna - 16/08, 19h30, Palco São João - e o Samba de Dandara recebe Geovana e Fabiana Cozza - 16/08, 16h30, Centro Histórico.
a programação está no site. mas acho que esta ainda incompleta, Cida Moreira, por exemplo, postou que tem um show no domingo, 10h, na Praça Dom José Gaspar, mas isso não tá no site; vale ficar de olho pra entender.
sábado e domingo tem a Mostra O Fabuloso Cinema de Matheus Marchetti na Cinemateca Brasileira, com sessões de longas e curtas-metragens do jovem realizador. com um universo que passeia pela fantasia, o horror e o queer, Marchetti tem um um universo estético e sensorial muito único, incluindo aí seu mais recente filme, “Labirinto dos garotos perdidos”, que já indiquei por aqui, e que ganha sessão no sábado (15), às 18h30, com um bate-papo com o diretor. enfim, oportunidade única de mergulhar em seu universo e tudo de graça - os ingressos serão distribuídos na bilheteria da Cinemateca com uma hora de antecedência para cada exibição. infos aqui.
final de semana que vem, dias 22 e 23, tem C6 no ROCK no Parque Ibirapuera, com shows que celebram o rock oitentista, incluindo uma seleção de discos clássicos sendo tocados na íntegra e duas homenagens especiais a Rita Lee e Cazuza. confesso que to bem ansioso para ver a Blitz unida com a Fernanda Abreu tocando seu disco de estreia e, obviamente, a minha diva Marina Lima tocando “Fullgás”. ainda tem ingressos disponíveis. nos encontramos lá!
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Fafá de Belém, “Humana”
já indiquei um ou dois da Fafá, talvez os dois primeiros dela, não lembro, mas com a efeméride de seus 70 anos, achei que fazia sentido recomendar uma Fafá contemporânea. “Humana” saiu em 2019, eu pude viver toda essa fase, ver o lindo show dirigido por Paulo Borges, escrevi sobre, conheci Fafá e ainda vi esse disco sendo oficialmente descoberto na pandemia - “Alinhamento Energético”, canção assinada por Letrux, acabou sendo um hit indie durante a pandemia com seus versos “Se você achou que ano passado foi intenso / ‘Cê não sabia de nada, inocente / [...] / Que fase louca / Que fase doida / Que ano é esse?”. acho que “Humana” expõe a complexidade e a versatilidade do canto de Fafá, mostrando que a cantora popular e festiva também pode sempre se embrenhar nos cantos “barra pesada”. e ouso aqui me auto-referenciar: “Esse projeto coloca Fafá ao lado tanto de novos compositores quanto os de outrora, mas aqui vistos em novos prismas. Letrux, Arthur Nogueira, Ava Rocha e Zé Manoel fazem companhia a nomes como Adriana Calcanhotto, Fátima Guedes, Waly Salomão, Jards Macalé, Joyce e Paulo César Pinheiro. Todos esses nomes se amarram no conceito maior do disco, que é revelar a complexidade de uma mulher com mais de 40 anos de carreira, que já vendeu discos aos montes e que cantou gêneros distintos como fado, bolero e sertanejo. [...] “Humana” deixa de lado o brega, os exageros usuais e se encaminha por arranjos ora mínimos e delicados ora fortes e intensos, como de uma banda de rock”, escrevi em 2019. “Ave do Amor” (Arthur Nogueira/Ava Rocha), “Revelação” (Clésio Ferreira/Clodo Ferreira), “O Terno e Perigoso Rosto do Amor” (Adriana Calcanhotto, sobre poema de Jacques Prévert), “Eu Nao Sou Nada Teu” (Conrado Segreto/Zé Manoel) e assim segue… muitas coisas lindas e fortes e cortantes.
leia minha resenha completa de 2019 no Scream & Yell.
reclames
essa semana no podcast VFSM recebemos a Larissa, do Coisas de TV, e conversamos sobre o espaço da música ao vivo na TV aberta e como nossa relação com esse tipo de apresentação mudou nos últimos anos. ainda há espaço para o som ao vivo (e para o novo) na TV? ouça aqui.
feliz demais com esse ep: bati um papo com a Claudya sobre o disco “Deixa eu dizer”, clássico de 1973, no Por trás do disco do VFSM e esse episódio ficou disponível essa semana. espero que vocês gostem.
até a proxima,
Renan Guerra







