#120
quem já me acompanha há um tempo aqui ou no podcast sabe que eu me repito. o impacto da música ao vivo, as experiências coletivas, a amizade, temas que voltam. e que voltaram essa semana, pois nos últimos dias estou indo há muitos shows, numa agenda que não fazia há tempos. Ivana Wonder na terça, MC Tha na quarta, Bia Soull na quinta, hoje tem Vitor Araújo, amanhã Cida Moreira e Vera Fischer Era Clubber. entre correrias de trabalho, mente maluca e todos os outros problemas, a música ao vivo tem sido um momento de respiro, uma pausa; e a cada show saio com diferentes pensamentos…
rever MC Tha, por exemplo, foi uma experiência de múltiplos efeitos. quando mudei para SP, a Tha estava num momento de fluxo e transição em sua carreira, vi muitos shows dela, bem como participações em shows de outros artistas. acompanhei o nascimento de “Rito de Passá”, disco que acabou se tornando paixão dividida com amigos, em audições conjuntas, clipes em repeat e shows compartilhados.
em certo momento de seu retorno aos palcos, MC Tha fez um discurso lindo sobre as complexidades de dividir esse mundo com os nossos pares, sejam essas ligações sanguíneas ou afetivas. para além de falar sobre as complexidades de nossas famílias clássicas, a artista falou também sobre esses familiares que escolhemos: os amigos.
eu já estava aos prantos, até que as pessoas ao meu lado começaram a se abraçar e uma das mulheres olhou nos olhos de seu amigo e disse “obrigado por me escolher e me acolher como sua família”. e minha cabeça lembrou na hora da Leila, uma das minhas melhores amigas.
eu e Leila moramos juntos vários anos, passamos a pandemia juntos e dividimos choros, risos, temperos e muita cerveja. já tinha pensado e falado na Leila desde que cheguei no show - “Eu ri, te citei, mesmo assim. Como quem não quer nada”. e tem motivo: eu e ela ouvimos muito MC Tha juntos. quando ela mudou de casa, a gente brincou que era nosso divórcio. na divisão de bens, separei meu vinil de “Rito de Passá” e dei pra ela, falei “faz muito mais sentido que esse disco fique com você” - hoje o disco está autografado e segue rodando na vitrola da Leila.
e aí na quinta estávamos os dois no show da Bia Soull. eu não vi ela, mas ela me mandou um vídeo me vendo à distância. lembrei do monólogo de “Frances Ha”:
É isso que eu quero em um relacionamento, o que meio que explica porque estou solteira agora. É difícil de explicar. É uma coisa quando você tá com alguém e você ama a pessoa e vocês sabem disso. Vocês estão juntos, mas é uma festa, sabe? Os dois estão conversando com pessoas diferentes. Você tá lá sorrindo e olha para o outro lado da sala e vocês trocam olhares. Mas não porque são possessivos ou que seja algo sexual, mas apenas porque aquela é a pessoa da sua vida. E isso é engraçado e triste, mas só porque esta vida vai terminar. E é esse mundo secreto que existe bem ali em público, mas imperceptível, que ninguém vai ficar sabendo.
Leila é uma das pessoas da minha vida. e sou feliz de ter outras dessas pessoas dividindo essa aventura. e isso virou um texto longo, pessoal, quase íntimo, mas acredito que fará sentido para alguns de vocês…
lançamentos
Julia Holter lançou o single “My Lost One” do álbum “Materia’”, projeto que expande o universo de “Something in the Room She Moves” e que sai no dia 21 de agosto pela Domino. achei uma lindeza essa faixa - amo o universo sonoro da Julia e estou curioso por esse disco completo, todos os singles que saíram até agora estão um bafo. ouça aqui.
fervos & bafos
3º Festival Filmes Incríveis: o Cine Belas Artes, em São Paulo, propõe uma volta ao mundo por meio de produções inéditas em exibicao até o dia 12 de agosto. a programação destaca, sobretudo, “pérolas escondidas”, garimpadas em uma caprichada curadoria que passeia por cinematografias raramente vistas no circuito de cinema – caraterística que se tornou marca do festival. são 16 produções de 16 países diferentes, entre dramas familiares, sátiras sociais, fantasia, suspense e relatos históricos. os ingressos para as sessões regulares do festival são comercializados por R$20 e R$10 e também há passaportes que possibilitam assistir cinco filmes pelo valor de R$45. ais informações em www.festivalfilmesincriveis.com.br
Retrospectiva Aki Kaurismäki: até o dia 12 de agosto o CineSesc recebe a retrospectiva do premiado diretor Aki Kaurismäki, nome fundamental do cinema contemporâneo. a mostra reúne pela primeira vez no Brasil os 18 longas para cinema do diretor finlandês, que faz filmes únicos sobre pessoas comuns em situações absurdas, mesclando melancolia, humor sarcástico e empatia. a programação reúne obras de diferentes fases do diretor, incluindo “Folhas de Outono”, Prêmio do Júri em Cannes 2023; “O Porto”, Prêmio FIPRESCI em Cannes 2011; e “O Outro Lado da Esperança”, vencedor do prêmio de Melhor Direção no Festival de Berlim 2017. também integram a mostra clássicos como “Sombras no Paraíso”, “Ariel”, “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos”, “Contratei um Matador Profissional”, “A Vida Boemia” e “O Homem sem Passado”.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Claudette Soares, “De tanto amor”
nunca tinha ido na aula da Claudette Soares; seu nome me rondava, mas nunca tinha parado com atenção. no último domingo vi um disco dela na Avenida Paulista e fiquei encantado com a foto da contracapa - que coloquei acima. e a partir disso eu dei play em “De tanto amor”, de 1971, e passei a semana obcecado com esse disco. a voz de Claudette é de uma beleza especial e, para nossa sorte, ela foi bem aproveitada num momento luxuoso das gravadoras, com discos robustos, de produção impecável, com arranjos de um refinamento único. aqui o canto se desenvolve com refinamento, sem exageros ou firulas. e pra isso se desenvolver de forma plena, temos um repertório absurdo, com grandes compositores e faixas de poética apaixonante. a sequência com “Coisas”, “Não quero ver você triste” e “Um novo sol” é simplesmente absurda e resume muito bem a força do canto de Claudette e a força desse repertório. obviamente, o destaque do disco fica pela faixa título, uma composição que Roberto Carlos lhe deu como presente de casamento - acho curioso isso ter sido um presente de casamento, pois é uma música de amor bem triste, risos, de todo modo, essa faixa se tornou um dos maiores sucessos da cantora e segue ainda hoje impecável.
reclames
nesta edição do podcast VFSM nós conversamos sobre versões de canções melhores do que as originais. rende polêmicas. ouça aqui.
até a próxima,
Renan Guerra









Tem 10 minutos que só sei chorar, te amo infinito meu amigo!
Que beleza essa abertura de texto. Acredito muito na força desse amor entre amizades, acho que devemos valorizar esse sentimento e lembrar de expressar isso, declarar como fazemos pros nossos outros amores.