#119
semana passada fui assistir “O Convite”, novo filme de Olivia Wilde. sou fã de “Booksmart” (que já indiquei por aqui) e fiquei feliz demais de ver um novo filme de Wilde tão bem amarrado. saí do cinema contente demais com os atores que eu gosto e com um filme tão delicioso.
tem-se falado de diferentes tópicos do filme: a direção de atores, a construção de mise-en-scène, os temas abordados no filme, entre outros. por aqui, quero celebrar outra coisa: a alegria de ver um filme desses no cinema, com uma boa distribuição.
Olivia Wilde já falou em algumas entrevistas que batalhou por um lançamento do filme nas salas de cinema, indo na contramão da tendência de lançar filmes considerados “menores” direto no streaming, e aí por filmes menores se entende comédias, romances e, em sua grande maioria, filmes vistos como “femininos”. a bem da verdade é que já faz anos que a indústria hollywoodiana parece ter só investido em grandes épicos, blockbusters barulhentos e filmes pra família nas telas do cinema…
“O Convite” é um filme de quase duas horas, passado dentro de um apartamento, com gente adulta conversando sobre relacionamentos e sobre sexo. é um alento num mar de filmes em que o que se sobressai é o barulho e a velocidade. Olivia nos pede outro tempo, nos coloca de forma interessante e divertida na dinâmica daqueles casais e nos convida para um outro tipo de experiência, daquelas que fazem falta na tela grande dos nossos cinemas.
e fiquei feliz que o filme teve um bom lançamento no Brasil. nos últimos anos o que temos visto é que esses filmes como “O Convite” acabam ficando em segundo plano nas distribuidoras, com lançamentos bem distantes do mercado internacional, em horários esquisitos e com divulgação parca. enfim, “O Convite” mostra que há público para filmes de comédia, romance e outros gêneros que não os filmes de hominho, mas para isso é importante que estes filmes sejam colocados em horários acessíveis e com divulgação correta.
quem puder, tente ver “O Convite” nos cinemas.
no abre da semana passada falei sobre árvores e contei que “eles estavam depenando a árvore na esquina da minha casa e deixaram ela só dois cotoquinhos”, mas fui ingênua. a árvore da esquina realmente foi apenas podada, porém um pouco acima dela havia uma goiabeira, essa foi de arrasta.
a goiabeira ficava na frente de um centro de estética, um desses bem cafonas com chão de porcelanato e fila de espera pro ácido hialurônico e pro botox. a goiabeira ficava no meio do estacionamento deles e, obviamente, na época do fruto, era normal que algumas goiabas caíssem no chão. tenho certeza que eles detestavam isso, não era muito “aesthetic” goiabas maduras ao chão pós-botox, né?
me senti em uma versão distópica de “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa”.
lançamentos
Nia Archives lançou “Emotional Junglist”, seu segundo disco, e eu sinto que ele é ainda mais chique que sua estreia. a forma como ela usa o jungle e o drum’n’bass em diálogo com outros ritmos é tão bom, pois ela faz uma costura com o cenário musical UK dos últimos 30 anos, de britpop a Lily Allen, de Prodigy a Arctic Monkeys. e pra acrescentar, a diva ainda é uma letrista tão interessante, sabendo trabalhar muito bem o clima “melancolia na pista de dança”. ouça aqui.
Pabllo Vittar lançou “ROCKSTAR“, o primeiro single de seu novo disco “LOST IN LUST”, que sai dia primeiro de outubro. mesclando funk brasileiro com outras fortes batidas eletrônicas, a faixa é produzida por S4tan, PZZS e Rodrigo Gorky e tem a colaboração da rapper porto-riquenha Villano Antillano. achei bem pistona, pra se descaralhar dançando, e acho que esse single dá um gosto do que vem por aí: a escolha por uma faixa tão intensa, com a presença de um nome importante do cenário latino, uma artista trans de assinatura forte, tudo isso demarca interessantes caminhos para dona Pabllo, vamos ver o que vem aí.
o cantor greco-britânico Tsatsamis lançou um clipe linduxo para “Angelina”, que está no seu disco “Tsycophant”. synthpop chique, um bafo >>>
Anitta lançou a segunda parte de seu projeto “EQUILIBRIVM”, trabalho em que explora sua religiosidade e dialoga com diferentes ritmos brasileiros. com participações de nomes como Alceu Valença, Mart’nália e Alexandre Carlo (Natiruts), em primeira audição, destaco seus encontros com Letícia Fialho e Maria Bethânia em “Ogum Me Rodeia” - achei um luxo Bethânia declamando - e com MC Tha em “Sem Pressa”, uma delicinha o encontro de vozes das duas.

que lindeza que é “Caribenya“, o novo disco da Lido Pimienta. o trabalho nasceu como side B do excelente “La Belleza”, de 2025, mas acabou crescendo e ganhou uma identidade própria e única. com o olhar especial de Lido para os ritmos caribenhos, o disco é bem mais pop que seu disco-irmão, e apresenta de forma muito rica o talento de Lido para criar canções que experimentam com a estranheza, mas que nunca abandonam totalmente o pop. colombiana radicada no Canadá, Lido sabe traduzir seus ritmos latinos a partir de um caldeirão global e isso se sobressai de forma linda nesse novo disco. destaque para faixas como “Tóxica”, “Libélula”, com Ana Macho, e “Así Nací” - essa última uma espécie de híbrido entre o universo dos dois discos.
Fafá de Belém lançou “O Coro dos Canalhas”, faixa gravada para a trilha de “Honestino”, filme de Aurélio Michiles, estrelado por Bruno Gagliasso, que reconta o desaparecimento de Honestino Guimarães, líder estudantil, ex-presidente da UNE e aluno da UnB, em um emblemático caso da violência de Estado durante a ditadura militar brasileira. de força pungente, a faixa resgata a face política de Fafá, artista que foi um dos maiores símbolos do movimento Diretas Já (1983-1984). ainda não consegui ver o filme, porém essa canção apenas reforçou minha curiosidade.
eu acompanho o queercore faz muitos anos e ele é basicamente o encontro do punk com a vivência e/ou a militância LGBTQIA+, porém essa semana apareceu pra mim o termo cumcore, um sub-sub-gênero, um nanogênero, que se define pelo encontro do punk e do noise com a putaria, e aí se compreende um olhar bem-humorado e livre sobre o sexo, os fetiches e outros desdobramentos. e eu descobri isso por causa da banda GUZZLR, que se inscreve dentro desse subgênero. seu novo EP, “Gag and Spit”, lançado hoje, é um excelente exemplar do cumcore. menos de dez minutos, quatro faixas velozes e que versam sobre sexo gay de forma despudorada. achei sedutoramente divertido a forma como eles mesclam versos sobre chupar pau e cruising com um ritmo forte, com bateria marcada e guitarra potente. ouça aqui.

minha loucura tem trilha sonora
celebrando os 20 anos de lançamento, “Noporn” (2006), do NoPorn, ganha edição em vinil e chega em LP duplo vermelho opaco, com capa gatefold, encarte original ampliado com as letras e entrevistas via Revista Noize.
e tem luxo para os assinantes dessa news: a Noize liberou um cupom de desconto luxo.. é só adicionar RENANPORN15 na finalização de sua compra e aproveitar. o disco está em pré-venda aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“A Professora de Piano”, Michael Haneke
não lembro se já indiquei algum filme do Haneke por aqui, porém ele é um desses diretores fundamentais aqui de casa. é uma relação quase masoquista? sim, e, talvez, por isso mesmo, faz muito sentido que esse seja o filme indicado aqui. “A Professora de Piano” volta aos cinemas no dia 30 de julho, em versão restaurada, com distribuição da FILMICCA - o filme já tem algumas sessões de pré-estreia nesse final de semana. baseado no livro da austríaca Elfriede Jelinek, o filme conta a história de Erika Kohut (Isabelle Huppert), uma professora de piano prestes a completar 40 anos e que vive confinada em casa com a mãe. seu escape está em visitas frequentes a cinemas pornô e peepshows, em um universo sexual marcado por um voyeurismo mórbido e pelo masoquismo. mas tudo muda quando Erika se envolve de forma intensa - e esquisita - com um de seus alunos. nesse jogo, quem se surpreende é o espectador. ainda não li o livro de Jelinek, então só posso falar sobre o roteiro de Haneke, que nos engendra em um universo de desejo e tensão. e aqui ouso dizer algo: esta talvez seja a atuação definitiva de Isabelle Huppert, tanto por que ela beira o sublime, quanto pelo fato de que aqui ela desenha os símbolos e signos de seu universo artístico. enfim, filmão pra se deixar atravessar e destruir. veja sem julgamentos.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Hell0 feat. Loka de Efavirenz, “Vivas (Dando Version)”
hoje eu mesmo burlo as regras dessa editoria e não trago aqui um disco, mas sim uma track que é bem importante pra mim. disponível no soundcloud da festa Dando há uns 7 anos, essa é uma faixa pensada num encontro entre Hell0, festa Dando e a coletiva ativista Loka de Efavirenz, grupo focado nos direitos, na visibilidade e na qualidade de vida de pessoas que vivem com HIV e Aids. a faixa tem bases bafônicas de pista e um spoken word potente sobre a vivência e resistência de pessoas vivendo com HIV/AIDS. beats misturados a dados, em um encontro que nos relembra que a pista é espaço de sobrevivência para as LGBTs. lembro de ouvir essa faixa algumas vezes na pista da Dando, experiências simbólicas - a Dando era uma festa de sexo, uma possibilidade livre de música eletrônica, um projeto inventivo de arte, cultura e liberdade, é difícil para mim definir aqui o que foi a Dando, por isso digo que na página 279 da nova edição do “Babado Forte”, de Erika Palomina, há uma descrição talvez mais prática da festa. enfim, acho essa faixa um tratado lindo e direto sobre a existência com HIV/AIDS no Brasil, elencando também todos os horrores disto. um faixa que é uma aula sobre o encontro de arte, pista de dança e política.
reclames
esta semana no podcast VFSM nós estamos conceituais. batemos um papo que tenta apontar caminhos e explicar por que você deveria ouvir música experimental, e pra ajudar convidamos um time de especialistas para dar dicas nesse sentido. ouça aqui.
até a próxima,
Renan Guerra







