#109
acho meio maluco que as pessoas entendam o amor apenas a partir de uma perspectiva romântica, sexual, binária - “me apaixono apenas pela minha alma gêmea e outros amores não são possíveis”.
o meu amor se constroi em diferentes linhas narrativas: amo minha mãe e meus irmãos por uma série de fatos narrativos que tornam nossa relação única e especial - vivemos juntos determinadas dores, medos e alegrias que são só nossas.
e, por causa disso mesmo, acho lindo que sigo me apaixonando pelos meus amigos. me apaixono quando um amigo me mostra uma nova foto ou um novo quadro que ele se encantou enquanto obra artística. me apaixono quando um amigo me fala que precisamos visitar juntos um novo lugar. me apaixono quando um amigo divide comigo um novo dia de descobertas pela rua. me apaixono repetidas vezes pelo sorriso e pela curiosidade dos meus amigos.
amo me apaixonar por eles. me encantar pelo olhar deles sobre o mundo. que coisa linda e perceber o mundo através do olhar de quem amamos. e que coisa boba e reduzir isso a poucas relações.
minha mãe, minha família e meus amigos do interior me mostram um mundo. meus amigos da faculdade me mostraram outro. meus amigos de SP me abrem novos caminhos. e meus companheiros diários de trabalho me desenham outros cenários. que tristeza se eu não pudesse enxergar/perceber o mundo através de tantos olhares diversos.
eu não preciso estar grudado nesses amigos, mas amo reconhecer cada detalhe deles em mim. amo entender como meu olhar sobre o mundo foi atravessado por eles. eles me ensinaram a olhar de outras formas para livros, filmes, canções, temperos, lugares. meus amigos são bússolas para ver o mundo de forma mais ampla e múltipla.
quero seguir me apaixonando pelos meus amigos a cada dia.
memória
essa semana fui ver o Baú da Veia, projeto em que Zé Pedro revisita a memória de cantoras que mudaram/marcaram a música brasileira. essa semana foi sobre o som de Claudya, cantora que está completando 60 anos de carreira e que merece ser recelebrada.
nessa noite relembrei o mesmo texto que escrevi em minhas redes sociais após uma das noites de Baú da Veia:
relembramos “a importância da memória, da celebração de quem veio antes, de quem abriu (e pavimentou) caminhos. Zé Pedro celebra isso uma vez ao mês no Bona, em SP. seu baú nos lembra nossas riquezas e reaquece nossa paixão pela arte, pelo Brasil e pelas nossas pessoas.hoje, por exemplo, revisitamos Gal, uma perda que ainda me doi. eu, que me acho tão sabido de Gal, me vi diante de vídeos desconhecidos e de joias esquecidas em acervos mal conservados. um deslumbre total. Zé Pedro sempre me relembra da beleza da nossa arte e tenho a alegria de poder chamá-lo de amigo. por isso reitero aqui, de forma pública, minha celebração de sua existência e de seu trabalho. nós, ainda resistentes, os apaixonados pelas memórias, pelas canções e pelas cantoras. obrigado, véia, por esse precioso baú!”
nesse texto eu celebrava seu resgate do acervo de Gal, mas hoje aproveito pra celebrar sua linda homenagem em vida para Claudya. artista máxima, a cantora teve carreira bifurcada, entre altos e baixos, e e bonito que em seus 60 anos de carreira ela possa celebrar suas belezas, riquezas e maestrias ainda em vida, ao lado de um público que a aplaude.
Zé Pedro não é jornalista nem historiador, mas é um apaixonado pela música brasileira. eu gosto de chamá-lo de pesquisar de nossa música, uma espécie de arauto, me sinto um privilegiado de aprender com ele. mais que um acervo, ele possui uma memória de ouvinte, de fã, de quem dedica seu tempo as canções e as cantoras. e é lindo quando ele compartilha isso com todos nós.
ver Claudya emocionada revende seus vídeos, vê-la cantando ao vivo ao lado de gravações dos anos 70, vê-la contando histórias, anedotas e memórias, que coisa linda. nossa memória é fundamental para entendermos o que somos agora. Claudya tem uma unicidade em seu canto, em seu estudo, em sua musicalidade, que merece ser ainda estudado e reverberado. e que lindo fazer isso com alguém que segue com seus olhos (e ouvidos) brilhando diante disso. e mais, frente a própria artista que construiu tudo isso.
lançamentos
Lykke Li está de volta e eu estou muito feliz. a diva lançou “The Afterparty”, seu sexto disco e que foi anunciado como seu trabalho derradeiro. eu oficialmente não gosto de seus dois últimos discos e fico muito feliz que eu realmente adorei o novo disco nessas primeiras audições. fiquei feliz demais de me encontrar de novo com minha menina sueca. ouça aqui.
durante anos fui meio obcecado pela Alice Caymmi e, de algum modo, me afastei do som dela nos últimos anos, talvez por isso mesmo, fiquei um pouco cetico quando ela resolveu remexer no repertório do vovô Dorival Caymmi. para além de suas gravações originais definitivas, Dorival tem cantoras que souberam desdobrar muito bem seu universo; “Gal canta Caymmi” (1976) e momento irretocável; Nana Caymmi brilha em qualquer regravação; Bethânia traz teatralidade e drama aos seus versos; e assim poderia seguir… mas Alice consegue trazer frescor, com nuances pop, em versões que embalam sua voz única na mesma medida em que apresentam a poética de Dorival Caymmi para possíveis novos públicos. fiquei feliz demais de ver Alice Caymmi criando seu próprio terreno dentro da obra de seu avo, desenvolvendo com liberdade, se jogando em mar perigoso, se aventurando em repertório cheio de armadilhas e, ainda assim, saindo disso ilesa, demonstrando talento, inteligência e elegância. a produção de Iuri Rio Branco cria uma cama moderna, ousada, mas ainda assim o que brilha e a beleza do canto de Alice. ouça aqui.
fervos & bafos
nesse final de semana rola a 10ª edição da Printa-Feira lá no Sesc 24 de Maio. nos dias 9 e 10 de maio, sábado e domingo, das 11h às 19h, com entrada gratuita. a feira reúne artistas gráficos, coletivos e editoras independentes, focando em artes impressas, zines e publicações alternativa. saiba mais aqui.
nesse sábado tem Kevin em SP, com Clementaum, Slim Soledad e mais no line-up. ingressos aqui.
nesse sábado também tem festa Brutus no Estúdio Lâmina, para unir clubbers e fetichistas. ingressos aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“Elena”, Petra Costa
primeiro) alguns áudios e cortes desse filme viralizaram no tiktok de forma completamente desconexa do filme; segundo) muita gente criou uma resistência com a narrativa (e com a voz/sotaque) da Petra depois de seus documentários posteriores. colocados esses pontos, eu peço: esqueça isso e se abra “Elena”, o filme mais pessoal de Petra Costa. algumas sinopses podem simplesmente descrever como uma busca de Petra por sua irmã atriz, mas o fato é que o filme se debruça oficialmente sobre o suicidio de Elena - e aqui não é spoiler, pois o fundamental é a forma como o filme lida com essa informação. de forma íntima e poética, Petra irá cavucar nessa dor, com foco nas marcas que isso deixou nela própria e na sua mãe. há muitas leituras desse filme - especialmente pessoas que questionam as nuances de classe dele -, de todo modo eu vejo como um processo de cura e entendimento da própria Petra; e pra mim, fez um sentido absurdo. muitas vezes em minhas espirais de fragilidade mental, eu revisitei esse filme e ele se transformou em um conforto: a dor do outro nos relembra as dores que sentimos e aquelas que podemos causar. enfim, filme lindo e doloroso. vejam de peito aberto, e deixem os preconceitos de fora.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Tulipa Ruiz, “Dancê”
eu poderia indicar qualquer disco da Tulipa, pois acho ela uma das mais importantes artistas brasileiras contemporâneas, mas indico esse disco pois ele foi um disco que eu achei só ok na hora que ele saiu. eu era jovem, não saquei tudo que tava aqui. ela tinha feito sucesso de crítica, tinha conseguido seu espaco pop, e ainda assim seguiu no que era sincero pra ela - e, interessantemente, é um disco que segue absurdamente pop, do tipo que bebe na fonte dos anos 80, Lulu Santos, Marina Lima, Pepeu Gomes. e se é pop, tambem é esquisito, pois Tulipa segue sendo filha da Vanguarda Paulista, seu pai Luiz Chagas, guitarrista da Isca de Policia, Itamar Assumpção, Ná Ozzetti. tudo esta mistura. e aí “Dancê” dialoga com um mundo diverso: o passado, os 70, Lanny Gordon, João Donato, os anos 2010, Metá Metá, o passado como uma roupa nova, a poesia como um fotograma do hoje e do antes, canções sobre o banal, o dia a dia, a morte, o amor, a solidão, o cotidiano, tudo vira poesia - e poesia pop, cantarolável. independente de qualquer diálogo, de qualquer referência, não consigo ver uma Tulipa do antes ou do depois - ela bebe de Gal, Ná e outras… mas ela é Tulipa. todos seus discos são aulas sobre inventividade, poesia e sobre a beleza de olhar o mundo, o outro e as trocas. eu fui envelhecendo e vendo o quanto esse disco é lindo. “Tafetá”, “Físico”, “Proporcional”, “Elixir” e o encerramento com “Old Boy” e “Algo Maior” - a primeira assinada só por ela e a segunda ao lado de Luiz Chagas e de seu irmão Gustavo Ruiz, ambas construções poéticas que mostram a maestria de Tulipa em enxergar/perceber o cotidiano, a nossa finitude, as nossas incertezas, a nossa fluidez. Quintana ficaria feliz em ouvir ela, tenho certeza.
reclames
essa semana organizamos uma série de dicas importantes para artistas em início de carreira lá no VFSM, falando sobre musica, comunicacao e outras coisas mais. ouça aqui.
essa semana estou no Esqueletos no Armário conversando sobre a carreira cinematográfica da mamãe Björk. fizemos render os dois filmes protagonizados por ela, rs. ouça aqui.
até a próxima,
Renan Guerra









