#099
no final das contas eu sou um emaranhado de pessoas e livros e filmes e canções.
e falo isso não de forma idílica, dissociada da realidade; falo isso como alguém que já se viu algumas vezes perdido dos itens físicos, de quem já se viu perdido nas finanças e na falta real de grana. nesses momentos me sobraram as pessoas.
me sobrou tudo aquilo que me construiu e que me ajudou a pavimentar o que veio depois. e obviamente falo aqui da perspectiva de alguém que vive da palavra, que trabalha com o texto e com o que nem sempre é palpável.
sendo bastante pessoal, o meu universo particular, o meu mundo interno só existe a partir desses emaranhados. são as minhas lembranças, memórias, conexões e referências que guiam meu olhar sobre o mundo. minha cabeça funciona com as minhas demandas funcionais sendo constantemente embaralhadas pelo filme de Almodóvar, a novela das oito, o disco de Caetano, a fofoca vista no tiktok, o texto de…
esses abres aqui se permitem a ser isso: um fragmento desse meu modo de pensar que é caótico e nem sempre claro. entre confusões nascem esses pequenos recortes que compartilho aqui. sem muita edição,

imperdível: para quem está em SP ou passar pela cidade, vale conferir a exposição “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema”, no IMS da Avenida Paulista. com entrada gratuita, a exposição segue em cartaz até o dia 14 de abril e repassa o universo fotográfico de Varda, revisitando algumas das suas séries mais icônicas, como suas fotos em Cuba e seus registros dos Panteras Negras, ambos nos anos 1960.
lançamentos
Peaches está de volta depois de 11 anos com o provocativo “No Lube So Rude”, disco em que reflete sobre sexo, desejo e liberdade em tempos de censura, de puritanismo e caretice. com o mesmo humor ácido de sempre, Peaches se espalha por seu electroclash, expandindo sonoridades e se mostrando mais moderna que nunca. ouça aqui.
Yasmine Hamdan, dona de um dos meus discos preferidos de 2025, o excelente “I remember I forget بنسى وبتذكر”, lancou agora “Mor مر التجني Club (Deena Abdelwahed Remix)”, um remix delicioso assinado pela dj tunisiana Deena Abdelwahed. ouça aqui.
fervos & bafos
no dia 21 de fevereiro, a multiartista carioca Letrux é a convidada especial da primeira edição da festa Estúdio da Betina Polaroid, que acontece no Cine Joia, em São Paulo. a noite marca a primeira apresentação da artista nesse formato em dupla na capital paulista, ao lado da drag queen e fotógrafa Betina Polaroid. “o Estúdio da Betina Polaroid nasce como um espaço de criação queer - e agora se expande para a pista de dança”, resume Betina Polaroid sobre o projeto, que propõe uma experiência híbrida entre festa, performance e show. além da apresentação inédita de Letrux com Betina Polaroid, o line-up da noite conta com Melina Blley em DJ set, além de performances de Bhelchi - ambas da segunda temporada de Drag Race Brasil - e Rafa Maia, produtor e idealizador das casas ZIG e da festa Kevin, acompanhado por performances de Galezya. as novas atrações anunciadas são a drag queen Gui Mauad e a DJ Dupas. ingressos aqui.
entre 24 de fevereiro e 5 de março, rola no MIS - Museu da Imagem e do Som, o curso presencial “Aumente o volume: os documentários musicais”, ministrado pelo cineasta, jornalista e curador Duda Leite. com encontros nas terças e quintas, das 19h às 21h30, o curso abordará diretores como D.A. Pennebaker (“Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”), Michael Wadleigh (“Woodstock – 3 dias de paz, amor e música”), Julien Temple (“O lixo e a fúria”), Martin Scorsese (“George Harrison: Living in the Material World”), Wim Wenders (“Buena Vista Social Club”), Jim Jarmusch (“Year of the Horse”, “Gimme Danger”), Todd Haynes (“The Velvet Underground”), entre outros. além disso, as aulas também abordarão uma seleção de documentários musicais brasileiros, incluindo “Os doces bárbaros” (1976), de Jom Tob Azulay; “Novos Baianos Futebol Club” (1973), de Solano Ribeiro; “Loki – Arnaldo Baptista” (2009), de Paulo Henrique Fontenelle; “Som, sol e surf – Saquarema” (2019), de Hélio Pitanga; “Uma noite em 67” (2010), de Ricardo Calil e Renato Terra; “Botinada – A origem do punk no Brasil” (2006), de Gastão Moreira; e “Cartola – Música para os olhos” (2007), de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. mais informações aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“A Opinião Pública”, Arnaldo Jabor
lançado em 1967, esse documentário de Jabor tenta encapsular a opinião da classe média carioca do final dos anos 60, questionando jovens e adultos sobre os mais diversos temas, dos costumes aos desejos políticos do país. filme de estreia de Arnaldo Jabor, o longa foi gravado com som direto, algo pouco usual na época, se transformando num filme fundamental para o documentário brasileiro, criando um panorama humano e complexo sobre a sociedade carioca - e, em algum medida, das populações urbanas brasileiras -, o filme segue como uma espécie de polaroid sobre os desejos, os sonhos e as crenças de uma população diversa e interessante, e que segue deliciosamente envolvente. com a lente do nosso tempo, o filme se transforma em um rico retrato sobre um país que em 1968 veria o endurecimento da ditadura militar. enfim, um belo filme para se pensar o Brasil de ontem e também o de hoje.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
PJ Harvey, “White Chalk”
falei há pouco tempo sobre um disco da PJ por aqui, e evito repetir as mesmas artistas em tão pouco espaço de tempo, mas nao consegui fugir de falar desse disco. na melancolia da quarta-feira de cinzas, estava reouvindo canções tristes e acabei indo revisitar esse disco da PJ Harvey de 2007. entendo “White Chalk” como um disco de transição dentro da carreira solo de PJ - acho que ele dialoga bastante com os trabalhos dela em parceria com o John Parish, tanto que ele é um dos produtores do disco ao lado dela e de Flood. pós “Uh Huh Her” (2004), que ela própria considera um trabalho mediano, que se repete, ela decide partir por outros caminhos: a guitarra, o baixo e a bateria dão espaço ao piano e a outros instrumentos que fogem do rock cru que marcou muitos de seus discos. aprendendo piano durante a produção do disco, PJ aproveitou essa fase de descoberta do novo instrumento para criar e se libertar em outras paisagens. para acompanhar isso, a voz é colocada em outros tons, mais aguda, mais alta, explorando caminhos que ela desenvolveria em seus discos posteriores. “White Chalk” caminha entre a beleza e a morbidez; um passeio entre bruxas e fantasmas, mas tudo atraves de uma guia que nao nos amedronta, pelo contrario, ela nos convida ao misterio. disco lindo e esquisito para se ouvir do inicio ao fim, de forma imersiva.
reclames
recentemente foi publicada no site da Revista Noize a pauta que fiz para a edição do disco da CATTO: a partir da figura icônica de Claudia Wonder, passamos por histórias e sons punks feitos por pessoas trans, de Verónica Vallentino a eliminadorzinho. leia aqui.
esta semana no podcast VFSM voltamos no tempo para 2016 onde relembramos alguns dos melhores discos lançados há dez anos. ouça aqui.
até a próxima,
Renan Guerra








