#097
sou nascido em fevereiro, amo carnaval, amo os desfiles das escolas de samba, amo a paixão das pessoas por essa farra, entro 100% no mood “chuva, suor & cerveja”. como o mês tava se iniciando, decide pegar pra ler “O corpo encantado das ruas”, do Luiz Antonio Simas, e, nossa, foi a melhor coisa que eu podia ter feito!
ando chorando no ônibus com a beleza desse livro. amo a forma como Simas olha para o Brasil e para o povo, como ele capta com delicadeza todas as complexas nuances de se crescer nesse país e nas nossas ruas. a forma como ele casa cultura afrobrasileira e de axé com festa, samba, botequim e celebração e de se apaixonar.
gosto demais do texto “Corpos em disputa”, que ele fala sobre o Carnaval e escreve:
“A festa em tempos de crise é mais necessária que nunca. A gente não brinca, canso de repetir isso, e festeja porque a vida é mole; a turma faz isso porque a vida é dura. Sem o repouso nas alegrias, cá pra nós, ninguém segura o rojão. Não dou a mínima para quem acha que não devemos ter carnaval, e ao mesmo tempo, não embarco nos discursos que justificam o carnaval exclusivamente pelo argumento de que a festa é lucrativa e vai gerar bilhões para a cidade. É ótimo que isso aconteça e que o dinheiro entre, mas vou botar água nesse chope: desde quando carval existe apenas para dar lucro? Desde quando isso é o critério fundamental para que tenhamos festa?”
[...]
“O carnaval é uma experiência de invenção constante, precária e sublime, da vida dos brasileiros. O Brasil, afinal, é a nossa circunstância bonita, heroica, fracassada, maldita, amorosa, desgraçada, desesperadora e incontornável, feito obaticum do samba tomando a rua.”
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destaco também esse trecho do texto “Pipas”
“Em um momento em que o Brasil dá a impressão de se desmanchar num mar de ódio, pode parecer maluquice escrever sobre pipas. Não acho. Soltar pipa, jogar porrinha, fazer churrasco na esquina, sambar, jogar futebol, ir a missa, bater palmas no terreiro, macerar as plantas que curam, benzer quebranto, intuir as chuvas, lembrar os mortos, ler os livros, desfilar na avenida, temperar o feijão são formas de construir sociabilidades mundanas capazes de dar sentido à vida, reverenciar o tempo e instaurar humanidade no meio da furiosa desumanização que nos assalta.”
“O corpo encantado das ruas”, Luiz Antonio Simas, Civilização Brasileira, 17ª edição - 2025
lançamentos
o grupo de kpop KiiiKiii lançou ep “Delulu Pack” e é uma delicinha. pop exagerado, música pra dançar, leve e descompromissada. “404 (New Era)” banger demais. ouça aqui.
Katy da Voz e as Abusadas lançaram “A Visita - Sandra Eletronica”, a versão deluxe de seu álbum “A Visita”, com duas novas faixas e um remix oficial para “Gordinha mas ta bom” assinado pela Clementaum. ta bafo. ouça aqui. e vale relembrar que Katy da Voz passou pelo podcast VFSM num Por Trás do Disco.
Mitski está preparando o lançamento do disco “Nothing’s About to Happen to Me” e liberou mais um single. “I’ll Change for You” é melancólica e delicada, demonstrando outros caminhos sonoros para o universo da artista. eu amei demais essa faixa e fiquei bem curioso pelo disco. ouça aqui.
“Sexistential”, o single que dá título ao novo disco da sueca Robyn, ganhou um rework assinado pela Arca e ficou um bafo! ouça aqui.
o gaúcho Guri Assis Brasil (que além de seu trabalho solo, toca também na banda de Otto) prepara o lançamento de seu novo projeto assinado sob a alcunha de Animal Invisível. o disco chega em abril na íntegra nas plataformas e em maio em vinil, tudo isso pelo selo nova iorquino nublu. como apresentação, o projeto já tem duas excelentes faixas lançadas, “Didi” e “Dendê”. ouça aqui.
artista sul-matogrossense radicado em São Paulo, pedro lanches prepara um novo EP que é apresentado pelo single “adesivos”, assinado ao lado de YMA. vale o play.
fervos & bafos
neste sábado tem clima paraense no Zig Studio com o Club Rock Doido com sets de DJ Baby Plus Size, LOFIHOUSEBOY e outras surpresinhas. ingressos aqui.
param quem esta em SP, no domingo tem Bloco do Risca Fada com a presença da Jaloo. mais infos aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“Fora do Jogo”, Jafar Panahi
os últimos meses tem sido extremamente importantes para o cinema de Jafar Panahi; em um momento complexo do Irã o cineasta tem conseguido burlar as repressões e circular pelo mundo com seu filme “Foi Apenas um Acidente”, que tem sido bem recebido pelo público - eu sou apaixonado pelo filme e já escrevi sobre la no Scream & Yell. de todo modo, trago aqui outro filme do diretor que está completando 20 anos e que segue muito atual - e que faz todo sentido ser revisitado em ano de Copa do Mundo. “Fora do Jogo” acompanha um grupo de mulheres que desafia a lei no Irã ao tentar assistir a uma partida de futebol - há uma lei que proíbe a presença de mulheres nos estádios no Irã, essa lei começou a ter algumas brechas a partir de 2022, mas segue sendo válida em grande parte do país. no filme de Panahi, as torcedoras querem ver um jogo decisivo para a classificação da seleção iraniana para a Copa do Mundo e se disfarçam de homem, tentando burlar a segurança. o filme foi inspirado na própria filha de Panahi e foi gravado realmente gravado em um estádio em dia de jogo da seleção iraniana - obviamente, o filme foi proibido de ser exibido no Irã. enfim, é um filme lindo sobre liberdade, coragem e ousadia, bem ao modo Panahi.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Lilith, “Sex Appeal”
hoje não e um disco, mas sim um EPzinho, pois fiquei meio obcecado por essa banda. Lilith foi um trio formado por Valéria Valenssa, Carla Alexandar e Cristina Ribeiro no início dos anos 90 - sim, Valeria is the one and only Globeleza, tanto que a capa icônica do album e assinada por seu marido, o designer Hans Donner. a banda lançou apenas o ep “Sex Appeal”, com quatro faixas, sendo que a canção “Todo Amor é Bom” se transformou em hit nacional ao ser usada como trilha de abertura da minissérie “Sex Appeal”, exibida em 1993 pela TV Globo - a minissérie e icônica por ter lançado atrizes como Luana Piovani, Camila Pitanga, Danielle Winits e Carolina Dieckmann! enfim, “Sex Appeal”, o ep, tem a carinha dos anos 90, mas com um charme muito único, em uma mescla de pop, soul e música eletrônica, conectando as batidas em alta nos EUA e na Europa com um tempero brasileiro. “Todo Amor é Bom” é extremamente viciante, gruda na nossa cabeça, mas as outras canções não ficam pra traz, “Lilith” tem um jogo de vozes icônico e uma brincadeira entre o rap e o spoken word, bem ao estilo Fernanda Abreu; “Neném” e super pista, beirando a house music; ja “Sex Appeal” tem ares de Janet Jackson se a diva fosse do subúrbio carioca. e isso, fiquei muito mundinho Lilith e queria que as divas fossem redescobertas para ouvirmos isso na pista de dança.
reclames
esta semana no VFSM nós fizemos um apanhadao do que rolou no Grammy 2026. ouça aqui.
o francês “Me Ame Com Ternura”, de Anna Cazenave Cambet, chegou essa semana aos cinemas brasileiros com uma história complexa sobre maternidade e liberdade feminina, em narrativa que reforça a magnitude de Vicky Krieps. leia minha resenha no Scream & Yell.
até a próxima,
Renan Guerra










Arrasou, Renan!! Ótimo Carnaval ❤️🥰🌹
Uau!! Amei os trechos sobre carnaval