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em tempos de hit internacional de “O Agente Secreto”, muita gente tem se perguntado como é a leitura de um gringo para o filme, o que eles entendem e o que não, como chega esse filme lá?
1) antes de tudo, amo como o cinema de Kleber Mendonça Filho é essencialmente brasileiro - mais que isso, Pernambucano. ele não suaviza intertextos, ele não traduz expressões, ele é fiel ao seu universo.
a abertura de “O Agente Secreto” com fotos de ícones brasileiros dos anos 70 deve durar menos de um minuto, no máximo dois, não sei dizer, mas aquilo demarca o espaço-tempo do filme para quem tem a conexão com aqueles signos postos ali. de Bethânia aos Trapalhões. para mim, por exemplo, há uma imagem de Nara Leão em “A Lira do Delírio”, de Walter Lima Jr., que já me conquistou.
talvez essa cena não diga nada pra um gringo. e isso é diferente do cinema de Walter Salles, por exemplo, que é construído buscando uma certa universalidade, explicando o Brasil e os porquês de suas narrativas - isso não é uma crítica, é só uma ponderação sobre cada tipo de criação.
2) posto tudo isso, acho curiosa essa questão de “será que eles entendem o filme em outros países?”.
entendo o cinema como esse espaço de conexão com o outro e com o mundo. o cinema me leva pro Japão, pra Coreia, pro Irã, me faz flanar por Paris, me embebeda de gaspacho na Espanha e me conecta com a Argentina.
se o espectador espera do cinema apenas um simulacro de seu universo, isso é um problema do espectador. o cinema é feito para nos proporcionar o diferente, para nos bagunçar, para nos encher de curiosidade. pelo menos é isso que eu quero.
Joaquim Pedro de Andrade já disse:
Por quê você faz cinema?
“Para ver e mostrar o nunca visto
O bem e o mal, o feio e o bonito”
espero que “O Agente Secreto” esteja atiçando a curiosidade das pessoas por aí. precisamos de mais curiosidade e interesse pelo outro.
lançamentos
“Ópera Grunkie” (2026), esse é o título do novo álbum de Marina Lima. repleto de participações especiais, como Ana Frango Elétrico e Laura Diaz (Teto Preto), o trabalho chega em março e teve a primeira canção revelada, “Olívia”. ouça aqui.
Isma, uma das metades das Irmãs de Pau, lançou seu primeiro disco solo, “Made in Cohab”, com participações como Clementaum, Katy da Voz e as Abusadas, MC Soffia e Tasha & Tracie. ouça aqui.
fervos & bafos
inicia hoje na Cinemateca Brasileira uma retrospectiva dedicada a Hector Babenco (1946–2016), cineasta argentino-brasileiro que completaria 80 anos em fevereiro. correalizada com a HB Filmes e com colaboração da MUBI, a mostra acontece entre 30 de janeiro e 13 de fevereiro. serão exibidas cópias restauradas de 11 longas-metragens, resultado de um projeto iniciado em 2016, sob coordenação de Patrícia de Filippi. entre os títulos a serem exibidos estão filmes assinados por Babenco, como “Pixote - A lei do mais fraco” (1980) e “O beijo da mulher aranha” (1985), bem como o de Bárbara Paz “Babenco: alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” (2017). além disso, rolará bate-papos com nomes como Drauzio Varella e o diretor de fotografia Lauro Escorel.
o Cineclube Cortina recebe hoje (dia 30) o bloco clássico Unidos do Swing para a festa (a)Mar Profundo. para além da temática marítima que convida sereias, marinheiros e piratas a aparecerem a caráter para a fanfarra, é um manifesto carnavalesco sobre a urgência de se entregar aos mistérios que habitam abaixo da superfície- afinal, mar calmo nunca fez bom marinheiro! a festa começa às 21hrs e os ingressos estão sendo vendidos pelo Sympla a partir de R$35.
neste sábado tem Homoteka - edição Carnateka na Zig Studio com muito house e eletronices refinadas. ingressos aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“Pequena Miss Sunshine”, Valerie Faris e Jonathan Dayton
uma parte do elenco de “Pequena Miss Sunshine” se reuniu no Festival de Sundance para celebrar os 20 anos do filme e eu confesso que fiquei nostálgico. esse filme teve um impacto muito grande em mim: lembro que a primeira vez que eu vi, eu terminei aos prantos pela beleza e delicadeza desse filme. uma família disfuncional em um road movie para levar a pequena Olive para um concurso de beleza. nessa estrada eles reviram dores familiares, traumas e aprendizados. Toni Collette, Abigail Breslin, Paul Dano, Steve Carell, Alan Arkin, todo mundo está perfeito nesse filme, todos unidos no mesmo tom, em uma narrativa que flui e nos envolve - com isso o filme consegue passear por temas complexos como depressão e suicídio e ainda assim se torna uma história leve, terna, que nos encanta e nos emociona. o tipo de filme feito para dar aquele quentinho no coração.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Sandra-X, “Turbulência”
sabe aquele vídeo do Paulo Gustavo falando das cantoras de São Paulo? um beat eletrônico e ele por cima dizendo “casa com casa ca”. esse disco é bem esse mood hahahaha. spoken word, experimentações eletrônicas e poéticas e um universo musical que nos envolve. o trabalho é uma parceria de Sandra-X com Felipe Julián aka Craca, um nome importante da cena experimental de SP. com canções assinadas por Sandra em parceria com diferentes poetas, o disco tem momentos extremamente interessantes, como a abertura com “Ele Desenhou”, ou a delicada estranheza de “Cai que eu te cuido ou ainda a interessante “Eixo Ondulante”, em que a água, as batidas eletrônicas e a voz de sandra se conectam e se intercalam em um jogo interessante. enfim, um disco a ser redescoberto.
reclames
voltamos das férias do podcast VFSM: neste episódio comentamos alguns dos discos mais aguardados de 2026 e aqueles que parecem sonhos ainda distantes. ouça aqui.
até a próxima,
Renan Guerra








não sabia que vinha álbum novo da marina lima por ai. tudooo!