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25 de setembro foi o aniversário de 76 anos de Pedro Almodóvar. para quem não sabe, um dos maiores cineastas espanhois, um dos grandes do nosso tempo. para mim o maior - celebro os outros divos que seguem aí arrasando, mas nada pra mim é igual Almodóvar. qualquer pessoa que me conhece um pouquinho sabe o quanto amo o diretor.
há algo meio embaralhado em minha memória, não sei o que veio primeiro, mas foi tudo na mesma época: encontrar um VHS de “Tudo sobre minha mãe” e ver com outras duas amigas o DVD de “Volver”. esses dois filmes mudaram a química do meu cérebro.
o VHS de “Tudo sobre minha mãe” segue na minha sala e esse se transformou no meu filme preferido da vida. eu obrigo todo mundo que mora comigo a passar pelas sessões deste filme. e eu sempre choro de novo, como se fosse a primeira vez. Agrado fazendo seu monólogo é como que um texto tatuado em mim; já Rosa encontrando o cão Sapic na praça e se despedindo do pai é cena que me corta demais - especialmente depois de minha vivência com o HIV.
nem vou me estender nesse texto, pois posso ficar horas falando sobre Almodóvar - tanto que tenho um curso que já ministrei algumas vezes sobre o diretor e que logo devo abrir novas turmas. só queria deixar marcado aqui como seu cinema é, para mim, um espaço de construção de outras possibilidades de existir. suas personagens, suas cores e seus sons me ensinaram que era possível ser quem se é, apesar do mundo.
ser uma Chica Almodóvar é um estado de espírito, é uma fenda de vibrante liberdade em um mundo careta e cinza. ele segue sendo meu norte, minha referência central.
nunca viu o divo e quer começar? vamos lá:
há dois caminhos: as intensas e as caricatas
intensas: vá de “Tudo Sobre Minha Mãe” ou “Fale com ela”
caricatas: vá de “Mulheres à beira de um ataque de nervos” ou “Ata-me!”
“ai Renan, estou em dúvida, sou caricata ou intensa?” então vá de “Volver”
“ah sou intensa, caricata, lgbt e talvez tenha algum CID” pode ir direto para “Má Educação” ou “A Lei do Desejo”
em todos os casos, eu acho que o melhor caminho é ver os filmes dos anos 90 e inícios dos anos 2000 pra começar, depois voltar nos anos 80 - inclusive nos bafos kitsch lá do início. a produção recente, pós 2015 eu acho que cresce muito mais quando a gente já viu os antigos e aí consegue entender o que há de diálogo com os filmes anteriores e com a própria biografia de Almodóvar. enfim, apenas sugestões de alguém viciado no divo.
lançamentos
“Melodia&Barulho” é o primeiro disco de estúdio do MC, cantor e compositor de Duque de Caxias Maui, que acaba de ser lançado pela gravadora Deck. com 16 faixas e participações de Afrodite BXD, Cristal, Tshawtty, Yoún, Maskotte, KBRUM, Bruno Kroz, Scof Savage e 2ZDinizz, o álbum transita por gêneros que pareces díspares, entre R&B, funk, pagode, afrobeat, drill, grime e reggae, criando uma viagem sonora bastante única - poderia ter virado uma confusão, mas eu achei que ficou bastante coeso e envolvente, uma delicinha que ficou no repeat aqui em casa. ouça aqui.
“Final Feliz” reúne Viridiana, CATTO e Navalha Carrera em mais um single que antecipa o segundo álbum de estúdio da produtora musical, cantora e compositora gaúcha Viridiana. “Coisas Frágeis” está previsto para o dia 03 de outubro e você já pode ouvir o novo single aqui.
esses dias o “Hounds of Love”, da Kate Bush, fez 40 anos e parece que a diva quis nos dar um presentinho. ela religou seu wi-fi e lançou a coletânea “Best of the other sides” com uma seleção de faixas b-sides que estavam no box “The Other Sides”, lançado em CD em 2019. dentre versões e remixes de faixas originais de Kate, eu acho interessante destacar suas versões para “Rocket Man”, de Elton John, que integrava uma coletânea lançada em 1991, e “Brazil”, aka “Aquarela do Brasil”, o clássico de Ary Barroso, em sua versão em inglês de Bob Russel - essa versão foi gravada por Kate para a trilha do filme “Brazil” (1985), de Terry Gilliam, porém acabou não entrando no corte final do filme. ouça aqui.
Jup do Bairro lançou o single “a gente vive menos que uma sacola plástica”, faixa que tem produção musical de FUSO! e Apeles e soa dark, dramática e experimental. este é o primeiro single de seu disco de estreia, “Juízo Final”, que será lançado por completo ainda este ano, com patrocínio da Natura Musical e via o selo Meia-Noite FM. ansioso para ouvir esse.
tenho uma paixão por clipes de gente andando e vivendo por aqui, falo disso aqui. e o novo clipe da CATTO acaba de entrar pra essa lista. “Para Yuri todos os meus beijos”, uma das minhas músicas preferidas do ano, ganhou clipe chique gravado no Japão, com direção de Gustavo Koch. “Caminhos selvagens”, quem não ouviu está vacilando, ouça aqui. também tem papo com a diva destrinchando o disco no podcast VFSM, ouça aqui.
fervos & bafos
dia 28/09, das 11h às 12h, o podcast VFSM fará uma gravação ao vivo com a Candy Mel sobre seu disco “5 Estrelas”. o nosso encontro faz parte do Festival Papo de Música, da jornalista Fabiane Pereira. o evento rola na Caixa Cultural SP, na Sé, com entrada gratuita! para quem se interessar, o festival já está rolando, com uma programação que inclui nomes como Don L, Stefanie, Tulipa Ruiz, Ana Frango Elétrico, Sophia Chablau, Tássia Reis, Anelis Assumpção e Zé Miguel Wisnik, veja a programação completa aqui.
hoje, dia 26, há um combo absurdo na programação do Soberano - Rua do Triunfo: a noite abre com bate-papo + stand up (!) do David Cardoso e depois segue com uma exibição do documentário “Hated: GG Allin and the Murder Junkies” (Todd Phillips, 1993)! tudo gratuito. mais infos aqui.
importante: “Paris, Texas”, de Wim Wenders, está de volta aos cinemas brasileiros em 4k. o filme mais lindo desse mundo em cópia chiquérrima, tentem ver na melhor sala que encontrarem!
segunda, 29, a partir das 20h, vai ao ar a faixa Negritudes no Canal Brasil, com destaque para a estreia do documentário “Terror Mandelão”, de Felipe Larozza e GG Albuquerque. ainda serão exibidas dez obras, entre longas e curtas, programas e docs em 12 horas de programação. eu assisti “Terror Mandelão” no festival In-Edit e escrevi lá no Scream & Yell sobre como o filme apresenta o funk bruxaria paulistano a partir das histórias de DJ K e MC Zero K. leia aqui.
a festa KEVIN marcou para o dia 18/10 o seu aniversário de 10 anos e o maior bafo é: LSDXOXO com dj set especial!!! ingressos aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“Antes que o Mundo Acabe”, Ana Luíza Azevedo
vira e mexe vejo listas de filmes coming of age nacionais e raramente vejo a galera citar esse filme divo aqui. lançado em 2009, com direção da Ana Luíza Azevedo, o filme tem o roteiro que é um grande combro da Casa de Cinema de Porto Alegre, pois é assinado pela própria Ana ao lado de Giba Assis Brasil, Jorge Furtado e Paulo Halm. “Antes que o mundo acabe” conta a história de Daniel, um adolescente de 15 anos que mora no interior gaúcho, junto com a irmã mais nova, a mãe e seu padrasto. Daniel tem uma namoradinha, a Mim, porém ela está em dúvida se gosta dele ou do melhor amigo dele, o Lucas. se não bastasse o caos que é ser adolescente, Daniel ainda começa a receber cartas do pai, que nunca havia dado sinal de vida, e que hoje em dia mora na Tailândia. enfim, tudo isso dá pano pra manga em um filme fofo sobre amadurecimento, mudanças e todos os dramas da passagem da infância pra vida adulta. além de tudo, ainda tem a diva Janaína Kremer, espécie de estrela onipresente em filmes gaúchos.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Gal Costa, “Lua de mel como o diabo gosta”
Gal era sensível, ela - tal qual qualquer pessoa - queria ser bem quista, não criticada, por isso ela sentia bastante quando seus trabalhos eram rejeitados. “Cantar” (1974) foi bem mal recebido em seu lançamento e se tornou meio que uma métrica do que “não se fazer” a partir dali, sendo que ela só foi fazer as pazes com esse disco já nos anos 2000, quando muitos artistas jovens ressignificaram esse disco e colocaram ele no devido lugar de clássico na discografia da artista. “Lua de mel como o diabo gosta” infelizmente não teve esse momento de ressignificação enquanto Gal estava viva. as canções desse disco quase nunca reapareceram nos repertórios ao vivo de Gal e nas raras vezes em que falou sobre o disco, ela o classificou como “irregular”, de todo modo, há também lendas & buxixos de que ela oficialmente renegava esse álbum. eu, em contraponto, sinto esse álbum crescer em mim a cada ano que passa. em texto publicado em 2020*, eu escrevia que esse “é um álbum que envelheceu bem, que não soa tão datado quanto ‘Profana’ ou ‘Bem Bom’. Ouvindo agora, esse álbum apresenta uma artista irrequieta, que não quer se aprisionar e busca novos caminhos, há uma entrega e uma busca de algo novo, por isso a voz tão exposta, tão alta (e esse volume vocal não é um real problema, já que a cantora domina as nuances de sua voz de forma intensa). [...] É realmente um disco irregular, com problemas e exageros, mas ainda assim bem melhor que um disco comum e repetitivo”. naquele momento eu dei uma tímida nota 7 para o disco - eu já tinha dado 10 e 9 para muitos discos, queria me mostrar rigoroso, rs -, mas reouvindo agora eu acho que não teria medo de dar um 8,5 ou 9. “Arara”, do Lulu Santos, abre o disco de forma única, pois nada se iguala ao volume da voz dela e ao uso da voz que ela faz aqui; “Tenda”, de Caetano Veloso, é delícia com clima bastante característico dessa fase tanto de Caê quanto de Gal; “Viver e reviver”, a versão nacional de “Here, There and Everywhere”, dos Beatles, é uma deliciosa cafonice ao estilo que só os anos 80 nos daria e, por isso mesmo, envelheceu como bom vinho; “Todos os Instrumentos”, da diva Joyce Moreno, fecha o disco em nível altíssimo, com produção jazzística, com Gal se derramando nas notas musicais, a forma como ela pronuncia a palavra “instrumentos”, criando um movimento em casa sílaba, é arte!; e claro, a faixa “Lua de mel”, de onde vem o título do disco, mais uma canetada de Lulu Santos. enfim, disco divo!
*esse texto foi publicado em 2020, mas por ser algo tão extenso, eu trabalhei nele desde 2016, então não sei precisar em que momento escrevi o texto sobre este álbum em específico.
1. “Lua de mel como o diabo gosta” entrou nesta sexta-feira, 26, nas plataformas de streaming em celebração aos 80 anos de nascimento de Gal Costa.
2. lá no Scream & Yell eu me debrucei sobre toda a discografia de Gal, analisando cada disco e trazendo algumas infos extra. como falei antes, é um texto publicado em 2020, talvez eu mudaria algumas coisas hoje, mas ainda assim é um material que tenho muito orgulho. leiam aqui.
reclames
essa semana revisitei meu passado como um pequeno figurante de “Terra Nostra” para uma pauta sobre as relações musicais entre Brasil e Itália. é um episódio que vamos de história geopolítica da Europa até o “Per Amore” de Susaninha. ouça no podcast VFSM.
Teatro: “Tudo o que nos cabe” explora questionamentos da comunidade queer a partir de um olhar singelo, quase de carinho, que nos relembra que o teatro também é leveza, resenha completa no Scream & Yell.
até a próxima,
Renan Guerra










"sou meio esquisita e cresci cercada de muitas freiras": comece por *maus hábitos*