#073
semana passada indiquei o Tiny Desk da ANOHNI and the Johnsons e o fato é que fiquei meio obcecado por essa apresentação, em especial a faixa final, uma versão nova de “It Must Change", a icônica faixa de abertura do disco “My Back Was a Bridge for You to Cross” (2023). ela estendeu a faixa e adicionou vários versos, achei bem forte esse final, ela canta com muito mais raiva e força. não consegui entender tudo (se alguém souber, me passe!! e se as frases estiverem incorretas, também me avisem), mas os que entendi foram esses: I’m not going to follow into annihilation with some christian taliban / I’m not going to get into bed with the weapons industry / I’m not going to get in there with fuel industry
acho muito poderoso uma voz como a da ANOHNI indo na NPR, uma rádio pública que anda sob ataque dos republicanos e dos trumpistas nesse momento tão tenso dos EUA. a voz de uma artista trans e extremamente politizada que usa sua arte para vociferar todas essas falas é um ato de coragem - pois sabemos bem como essa galera conservadora norte-americana pode ser maluca e violenta.
enfim, pensando na figura e na obra da ANOHNI, lembrei de um depoimento que ela deu sobre sua relação com a persona de Diamanda Galás. eu fiz uma tradução livre desse trecho em uma matéria sobre a Diamanda e acho que cabe resgatar aqui: “Não conheço ninguém que tenha dedicado sua vida e energia mais inteiramente a seu trabalho do que Diamanda. Não conheço ninguém que tenha escalado a face da lua com sua voz como Diamanda, que se sentou sozinha na escuridão e procurou tanto como ela. Ela deu mais de si do que podemos imaginar. Ela busca a excelência a cada respiração, seu canto é incomparável, ela é olímpica em sua habilidade e, simplesmente, está sozinha em seu ofício. [...] Ela manteve-se fiel às suas intenções ao longo da sua carreira, brutalmente fiel aos seus valores”.
é incrível como essas palavras servem completamente a ANOHNI. pois ela segue inteiramente fiel a suas crenças, aos seus valores e especialmente a sua arte - e ela entende completamente que sua arte não se dissocia do mundo e de suas idiossincrasias. sua existência, seu corpo e sua voz são movimentos políticos e artísticos que ela amorosamente compartilha com a gente.
devo acompanhar ANOHNI há mais de 15 anos e sigo sendo surpreendido e seduzido por sua obra, pois além de tudo que já falei, ela ainda constroi algumas das coisas mais belas e sublimes deste mundo, realmente a voz de um anjo nos falou!
lançamentos
a dupla nova-iorquina Fcukers foi algo que eu só descobri a partir do line-up do Balaclava Fest 2025, mas desde que ouvi a primeira vez me apaixonei. a forma como eles se utilizam dos ritmos eletrônicos da virada do século, como o drum’n’bass e o UK garage, é extremamente interessante e atual. eles lançaram essa semana o single “Play Me” e o clipe da faixa apresenta bem a vibe do duo, veja aqui. estou curioso para vê-los ao vivo e também pelos próximos passos que eles darão - vamos torcer que as boas expectativas se tornem realidade.
os divos do duo mineiro Paira estão preparando seu "EP 002" e lançou essa semana o single "Confissão", acompanhado de videoclipe filmado em 16mm dirigido por Patrick Hanser e gravado em meio à neblina densa de Paranapiacaba. uma delícia entre o dream pop e o UK garage. veja aqui.
o sergipano Lau e Eu lançou o ep “feroz comum silêncio entre nós… Pt1” e está uma lindeza que só. canções entre o indie e o pop com jeitinho de abraço, ouçam aqui.
importante dj da cena queer de Dublin, Cormac lançou hoje o sedutor single “Gone”, com ecos dos sons dos anos 80. a faixa vem acompanha de remixes de Ewan Pearson e Fred Terror. ouça aqui.
sério, ouçam isso: o coreano DJ co.kr chamou a Deize Tigrona para o single “Pika” e está bafônico - a letra é tudíssimo!!! a faixa ainda vem acompanha de remixes de nomes como WOST e Dj Babatr. ouça aqui.
está oficialmente no ar “Veronica Eletronica”, o disco de remixes do “Ray of Light”, da Madonna. nunca lançado oficialmente, o projeto idealizado lá em 1998 se transformou em espécie de lenda entre os fãs da rainha do pop e agora finalmente chegou ao público. ouça aqui.
encontro de twinks: Guitarricadelafuente e Troye Sivan se reunem no single “midsummer pipe dream” - essa é a segunda parceria dos artistas que já haviam se encontrado no disco “Something To Give To Each Other”, de Troye, em 2023.
para assistir
Babymorocco é um artista anglo-francês-marroquino de estética bastante camp, com um som pop e pegajoso. saiu essa semana o clipe de “The Boys & The Girls”, um mood 100% anos 2000, exagerado e divertido. veja aqui.
fervos & bafos
nesta sexta e sábado (25 e 26 de julho), rola a virada cultural da Casa 1, em SP. a casa de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ apresenta um evento que irá durar 24 horas e contará com shows de abertura de Johnny Hooker e Urias. a programação conta ainda com exibição de 3 filmes em parceria com Vitrine Filmes, oficinas na Cozinha Comunitária, rodada de jogos de tabuleiro com mais de 200 opções, oficina de colagem, yoga, fanzine, desafio de desenho Gi Batalha, visita ao Parque do Bixiga e mesas com Rafa Brunelli, Amara Moira e Débora Baldin. saiba mais aqui.
no dia 31 de julho, quinta-feira, rola o show Alzira E + Corte cantando o disco “Mata Grossa” no porão da Casa de Francisca, no centro de SP. o porão abre às 20h, o é show às 21h30. ingressos aqui.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
Preta Gil, “Prêt-à-Porter” (2003)
quem viveu os anos 2000 lembra que Preta barulhou esse país com o “'Prêt-à-Porter”. o encarte do disco é lindo, com fotos assinadas por Vania Toledo, simplesmente uma das mais importantes fotógrafas da cultura brasileira e que fez história com um livro de fotos nuas de nomes como Caetano Veloso e Ney Matogrosso. enfim, as fotos se transformaram em uma polêmica vazia, na qual muito mais se falou sobre o corpo de Preta do que qualquer outra coisa - só quem viveu os anos 2000 lembra os surtos e cobranças em torno dos corpos femininos. enfim, todo esse debate fez com que muita gente não ouvisse um disco delicioso, divertido e cheio de amor, como só Preta podia gerar. com produção de Antoine Midani, o disco foi recebido de maneira morna pela crítica brasileira, que sempre insistia em cobranças em torno do arcabouço familiar de Preta, mas o disco é bem redondinho no que se propõe: algo pop, leve, que bebe no samba-funk e no axé da virada do século. "Sinais de Fogo" se transformou em um smash hit atemporal, mas o disco ainda tem coisas deliciosas como "Andaraí", a leveza de "Precisando de Amor", a versão linda de "Espelhos D'Água" e a beleza de "De toda maneira". vale uma audição de coração aberto.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“Meu Jantar com André”, Louis Malle
Louis Malle é realmente uma figura problemática. o véio morreu nos anos 90 e a gente até poderia dizer “ai vamos separar a obra do artista, pois já se foi”, porém até sua obra tem coisas que, bem… digamos que seriam consideradas criminosas atualmente. não vou me estender nisso, mas vocês podem pesquisar mais depois. aqui me limito a esse filme de 1981, já da fase norte-americana de Malle - ele é francês e filmava desde os anos 1950; aliás, da fase francesa recomendo o precioso “Zazie no Metrô” (1960). em “Meu Jantar com André” nós literalmente acompanhamos o jantar do protagonista com o André. dois velhos amigos se encontram num restaurante chique de Nova York, Wally (Wallace Shawn) é ator e Andre Gregory (Andre Gregory) é diretor teatral. apesar de profissionais da mesma área, os dois possuem visões opostas sobre diversos pontos. mesmo filmado numa formatação ao estilo teatral, o filme é uma experiência naturalista, com diálogos e atuações que parecem quase documentais - tanto que muitas pessoas acreditaram que o filme seria uma narrativa biográfica dos protagonistas, algo negado por ambos. fato é que o filme é uma pequena joia: a primeira vista a proposta de assistir um papo entre amigos durante 1h 50min pode parecer monótona, mas de algum modo essa aparente trivialidade nos envolve. Wallace Shawn está em uma de suas melhores performances; o roteiro do filme é rico e provocativo; e o minimalismo da produção segue um charme. pra finalizar - e sem spoiler -, digo que a cena final desse filme é, para mim, de uma beleza especial, pois capta de forma única a beleza e complexidade do banal, do corriqueiro; vira e mexe relembro dela e me encanto de novo.
reclames
mergulhamos na discografia dos Beatles e polemizamos ao criar um ranking - porém foi uma decisão da democracia, ok? ouçam no podcast VFSM.
teatro: em curta temporada (quartas e quintas de julho no Teatro Pequeno Ato, na Vila Buarque, SP), a peça “Não é um filme” rememora o jogo das comédias românticas para falar sobre novas cirandas afetivas no mundo gay. resenha no Scream & Yell.
está semana saiu o Por Trás do Disco em que eu bati um papo com a multiartista baiana Ventura Profana e o produtor Jordi Amorim sobre o álbum “Todo Cuidado É Pouco” (2025). é um papo longo, cheio de camadas e aprendizados. ouça no podcast VFSM.
até a próxima,
Renan Guerra










Eu adoro o episódio de community que é aniversário do Abed e tudo leva a crer que vai ser parodiado pulp fiction mas na verdade é my dinner with Andre hahaha
toda sexta eu tô aqui sem falta! amo