#057
pensar nossa existência no espaço tempo é sempre uma aventura. pensar em existir em outro espaço-tempo é um exercício de tensão para qualquer pessoa que não seja um homem-hétero-branco-classe-média-alta.
uma pessoa negra voltar no tempo no Ocidente? putz, barras né. tem uns babaduxos de escravidão e tal, não sei se vocês lembram, mas isso por aqui tem nem um século. “Kindred”, da Octavia Butler.
a minha experiência nem se compara a isso, sou bichinha, mas ainda sigo um homem branco de quase 1,90m, visualmente isso ainda reverbera muita coisa nas pessoas.
mesmo assim sempre penso que só estou vivo porque estamos nos anos 2000. se eu volto 40 anos eu enfrento coisinhas assim como a AIDS e todos os estigmas que isso acarreta, todos os medos que vêm acoplados e toda incerteza de sobrevivência.
é muito absurdo que o tempo ainda é muito pouco. são 30, talvez 40 (dependendo da classe social) de alguma possibilidade de existência livre e digna para mulheres brancas. são 20 anos ou menos de existências um pouco mais maleáveis e mutáveis para homens e mulheres negras e para pessoas LGB - sim, só essa parte da sigla mesmo, pessoas trans e queer avançaram em algumas frentes, mas ainda são resistência e ainda precisam lutar por uma vida digna.
é absurdo né? como dizia a canção “Índios e padres e bichas, negros e mulheres / E adolescentes fazem um carnaval”, porém toda quarta-feira de cinzas voltamos a ser as Genis da sociedade.
e esse texto nem é sobre desânimo, é só um lembrete de que tudo que temos hoje é frágil e jovem, precisamos seguir resguardando nossas existências.
pelo lazer
trabalhar com o universo da criação acaba borrando algumas barreiras do que é trabalho e do que é a minha vida pessoal - a minha vida fora da perspectiva de ser útil a algum sistema.
eu raramente consigo dizer “ok encerrei o trabalho e agora mudo uma chave aqui”. meu trabalho está embrenhado na minha cabeça. meu trabalho é 100% minha cabeça. tudo que vejo, leio, escuto se reverbera em análises, referências e correlações. e aí meu lazer acaba virando textos, posts, matérias.
e esse texto nem é uma reclamação - sei bem dos privilégios do meu trabalho. é mais uma análise disso. tem dias que queria desligar a chavinha e ver um filme apenas como entretenimento, sem análise, “vi, me diverti e minha vida segue” hahahah
já consegui criar alguns limites. nem tudo mais vira texto-post-análise. tenho visto algumas coisas e é isso, só vi, pronto. assim como já me desobriguei de ouvir quase tudo e ter opinião sobre tudo. criar esses espaços é importante até mesmo para que eu volte para o espaço do trabalho com mais leveza e mais prazer.
é uma coisa viver com a cabeça em movimento por tudo. é bom e é ruim. uma aventura. já pensei que eu poderia estar em outras áreas de trabalho, mas já aceitei que o que sou bom mesmo é nisso: escrever e pensar as coisas desse meu jeito. não tem muita escapatória. às vezes a pessoa é realmente para o que nasce.
lançamentos
essa foi a semana da Marina Sena. “Coisas Naturais” bateu forte aqui. gostei muito como ela se sente solta, leve pra mesclar suas referências e criar interessantes diálogos entre a MPB e a música pop. ouça aqui.
Mahmundi voltou com um single ótimo e que marca a sua nova fase da carreira. “Irreversível” é uma delicinha, ouça aqui.
essa semana venho com menos coisinhas, semana passada teve lançamentos demais, ainda estou ouvindo as coisas que indiquei semana passada…
reclames
cinema: “Meu nome é Maria” revisita a história da atriz Maria Scheneider e os traumas causados por “Último Tango em Paris”. leia no Scream & Yell.
cinema: “Câncer com ascendente em virgem”, de Rosane Svartman, apresenta o câncer de mama por uma perspectiva de acolhimento. leia no Scream & Yell.
essa semana nós colocamos as máscaras e passamos o álcool gel para relembrar no VFSM os sons que dominaram a pandemia de covid. ouça aqui.
essa semana a newsletter veio sem algumas colunas específicas, mas é isso, somos o que podemos ser e essa semana não deu tempo eheheh
até a próxima,
Renan Guerra






Nunca entendo mulheres que dizem que nasceram na época errada. Quero dizer, entendo o apelo da moda de alguns momentos na história e eu também adoraria que tivéssemos a volta de alguns estilos. Mas daí a nascer na época errada (geralmente querendo dizer que deveria ter nascido no século passado, retrasado, etc)? Nós mulheres não temos nada de bom lá atrás, nada a nosso favor. Pelo menos nada que justifique tamanho desejo. O melhor momento pra se nascer mulher é sempre agora. Espero que isso não mude.