#053
semana passada foi um combo que começou com meu aniversário já na quinta-feira de carnaval e depois disso eu não parei mais, mood carnavalizou e por isso essa newsletter ficou em hiato. mas voltamos hoje, vamos que vamos:
“Meu querido, eu sou cantora!”
essa coisa do intérprete é uma questão que sempre volta na música. no pop vira e mexe se questiona o fato de grandes artistas mainstream terem vários compositores em suas músicas, porém nem entrarei nessa questão…
aqui pelo Brasil sempre tivemos certa tensão que vira e mexe volta, especialmente em torno de nossas cantoras, visto que até os anos 80 a grande maioria delas era apenas intérprete. de todo modo é em nossas cantoras que temos os melhores exemplos do que é ser intérprete e saber transformar uma canção de outro compositor em propriedade sua.
Exemplo que eu amo: Caetano Veloso lança “Tigresa” em 1977 no seu disco “Bicho” (talvez o meu preferido dele, amo que amo, arte pop), a faixa está no lado B do álbum. Bethânia lança a canção também em 1977 em seu disco “Pássaro da Manhã”, sendo esta a faixa 2 do disco - trabalho que foi um sucesso popular, recebendo a certificação de disco de ouro. Ney Matogrosso lança “Tigresa” também em 77, em seu disco “Pecado” - aqui a faixa abre o lado B do álbum.
mas-todavia-contudo Gal Costa resolve também gravar essa faixa, abrindo o lado B de seu disco “Caras & Bocas”. “Tigresa” seria conquistada, dominada e eternizada por Gal. ela enquanto intérprete conseguiu extrair todas as nuances e qualidades da canção, transformando ela em um sucesso estrondoso.
e isso não minimiza as qualidades dos outros cantores, é só o fato de que ela transformou essa canção específica em algo maior a partir de seu olhar de intérprete. e isso do mesmo modo que Ney Matogrosso, por exemplo, eternizou “Poema”, de Cazuza, ou Bethânia definiu como sua “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque.
Caetano, por exemplo, é cantor e compositor, e tem canções suas que foram dominadas por esses intérpretes acima citados. além de “Tigresa”, Gal também transformou “Vaca Profana” e tantos outros de Caê em clássicos de seu repertório, se transformando na voz essencial da poesia de Veloso. Bethânia, por sua vez, eternizou “Mel”, parceria de seu irmão com o poeta Waly Salomão.
e esses talentos de intérpretes apenas reforçam a insignificância e esquecibilidade de tantos cantores e cantoras que tentam seu lugar ao sol, mas que, apesar de qualquer técnica, não tem o je ne sais quoi. parece bobagem, mas star quality é coisa que se tem ou não se tem, basta ver o bando de nepobabys e herdeiros que investem e investem, mas nunca acontecem. é preciso algum babado que nem sei explicar, mas que quando ouvimos a gente sabe e, principalmente, sente.
nos últimos tempos temos cantores-compositores bafo, mas quase não vejo grandes intérpretes, desses que barbarizam as canções e sabem criar um grande repertório. na geração anterior temos nomes como Filipe Catto, por exemplo, mas entre os novinhos ainda não senti aquele bafo. vamos ver.
lançamentos
ela está de volta! Lady Gaga retornou com “MAYHEM”, seu novo disco pop, que até dialoga com a Gaga do início de carreira, mas que abre mais portas para refs dos anos 80, como Prince e Michael Jackson. ainda irei ouvir mais, pois temos que decorar tudo para o show de maio em Copacabana! então vamos de play.
saiu hoje “SALVATION”, novo disco de Rebecca Black, a menina que viralizou como meme e que hoje se transformou em um nome super interessante do pop e hyperpop. vale demais o play.
Perfume Genius se uniu a Aldous Harding no single “No Front Teeth” e a parceria ainda ganhou um clipe surreal - uma vibe meio lynchiana. veja aqui.
Sevdaliza se uniu as divas Irmãs de Pau no single “Maria Magdalena” e ficou tudo, bem com clima funk para se jogar na pista. para acompanhar veio um clipe recheado de participações, indo de nomes como Mia Khalifa até Luiza Sonza. veja aqui.
a diva Ventura Profana lançou mais um single de seu aguardado novo disco. “Giramundo” é um absurdo, com uma base mais jazzística, Ventura brilha com sua força. cada vez mais curioso por esse disco completo. ouça aqui.
os cariocas da Vera Fischer era clubber lançou seu primeiro single “Fantasmas”. com influências que transitam pelo post-punk e eletro-punk, a banda usa de vocais irreverentes e debochados que dialogam com diversas referências. uma boa pedida para quem gosta de coisas como NoPorn e Teto Preto. ouça aqui.
fervos & bafos
a BUTT Magazine está enfim chegando ao Brasil para um belo close amanhã: a edição 36 da revista será lançada neste sábado na Banca Corredor Cultural, na Galleria Metrópole, a partir das 18h. depois disso terá after party no Mamãe, a partir das 21h, com sets de Juan Duarte e EPX. saiba mais aqui.
nesta sexta tem Eli Iwasa no Ephigenia acompanhada de um line-up podre de chic. ingressos aqui.
tá rolando no Centro Cultural Fiesp a exposição “TUDO PODE (perder-se)”, do multiartista Tadeu Jungle, recomendo muito. com entrada gratuita. mais infos aqui.
hije tem a festa de lançamento de ‘MAYHEM’, da Lady Gaga, na ZIGStudio! Night of 1000 Gagas: ‘MAYHEM’ a partir de 23h com um elenco chiquérrimo de performances: Penelopy Jean, Dacota Monteiro, Organzza, Natasha Princess, Jezebel, Zeus Achetti, Alexia Twister, Kitty Kawakubo e mais surpresas pela noite! ingressos aqui.
videolocadora
nessa sessão indico filmes de qualquer época que eu acho interessante e que valem o play
“Sussurros do Coração”, Yoshifumi Kondō
este ano “Sussurros do Coração” está completando 30 anos de lançamento e segue sendo um dos meus preferidos dos Studio Ghibli por sua delicadeza e beleza. com roteiro de Hayao Miyazaki, o filme acompanha a adolescente Shizuku que, apaixonada por livros, descobre que um mesmo garoto havia retirado na biblioteca os mesmo livros que ela, isso a leva em uma nova relação com esse personagem curioso. os dois personagens são mergulhados em um universo de artes, descobertas e amadurecimento, tudo isso costurado em uma narrativa que mescla realidade e imaginação, com drama, romance e uma delicadeza única. recomendo assistir esse em dupla com o seu filme-irmão “O Reino dos gatos”, de 2002.
as cantoras lá de casa
sessão onde indico um disco de alguma cantora dessas de outros tempos que vivem no repeat aqui em casa
“Senhor do Tempo - As Canções Raras de Caetano Veloso”, Claudia
Claudia, que hoje assina como Cláudya, é do tempo em que as cantoras não tinham sobrenome, e tem uma carreira longa, com amplos sucessos nos anos 70 e 80. por aqui escolhe um disco já de sua maturidade, lançado em 2011 pela gravadora Joia Moderna. “Senhor do Tempo - As Canções Raras de Caetano Veloso” reúne um repertório de canções lado B de Caetano em interpretações refinadas e classudíssimas. faixas como “Naquela Estação”, “José” e “As várias pontas de uma estrela” ganham versōes lindas, mas o meu destaque especial vai para “Menino Deus”, que ganha aqui - para mim - sua versão definitiva, uma lindeza que só!
reclames
entrevista: tive a honra de conversar com Arto Lindsay em um papo que falamos sobre o projeto “Afonia e Afeto”, onde discute arte, tecnologia e o que surgir na conversa. leia no Scream & Yell.
semana passada fizemos um especial chique de David Lynch no podcast Vamos Falar Sobre Música. ouça aqui.
essa semana revisitamos alguns dos 100 melhores discos brasileiros da primeira metade dessa década. ouça aqui.
até a próxima,
Renan Guerra










Nesse lance de compositor e cantor, acho interessante tb como Caetano teve sucesso como intérprete de "Sozinho", do Peninha.